“A carne mais barata do mercado é a carne negra”: comércio e fuga de escravos músicos nas primeiras décadas do Brasil oitocentista (1808-1830)

Humberto Amorim

Resumo


Partindo de um panorama histórico das atividades musicais desempenhadas por negros na América portuguesa, o artigo objetiva pautar e discutir o comércio e o ciclo de fuga-captura-punição de escravos com habilidades musicais entre os anos de 1808-1830, avaliando em que medida tal mercado alcançou as principais aglomerações urbanas e rurais no Brasil Colônia e Imperial. Para tanto, levanta dezenas de incidências em 10 periódicos de cinco diferentes províncias: Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, São Paulo e Minas Gerais. Os dados são conectados aos apontamentos de importantes pesquisas musicológicas (CASTAGNA, 1991. HOLLER, 2006. SANTOS, 2009) e confrontados com o arcabouço teórico oferecido por relevantes estudos sobre a escravidão no Brasil (MARQUESE, 2006. SCHWARTZ, 1988, 2001). Os resultados indicam um plano comum nas diversas facetas que envolveram o negócio de cativos (incluindo os músicos) em território brasileiro: a sistêmica, permanente e abundante oferta de uma “carne negra barata”.


Palavras-chave


Música no Brasil no séc. XIX. Fuga de Escravos. Comércio de Escravos. Escravos Negros Músicos.

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DOI: http://dx.doi.org/10.20504/opus2017b2304

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