A língua vernácula na música católica no Brasil desde o século XIX: cânticos espirituais e as representações acerca da participação ativa dos fiéis nos ritos religiosos

Fernando Lacerda Simões Duarte

Resumo


Durante o Concílio Vaticano II (1962-1965) a liturgia católica experimentou um processo de revisão que ocasionou reformas profundas, algumas das quais já se encontravam em curso há pelo menos duas décadas. Considerado útil à participação ativa dos fiéis nos ritos, o uso da língua vernácula nas cerimônias religiosas foi ampliado. Assim, passaram a existir representações de que antes do Concílio inexistia uma preocupação da instituição religiosa com a participação dos fiéis, bem como de que a língua vernácula não era utilizada na música e nos ritos religiosos. Este trabalho tem como objetivo discutir os possíveis usos de cantos em língua vernácula na Igreja Católica no Brasil já na segunda metade do século XIX, os chamados cânticos espirituais ou cantos religiosos populares. Os dados obtidos em pesquisa bibliográfica e documental foram interpretados a partir de Roger Chartier, Walter Buckley e Niklas Luhmann. São abordados no artigo o papel dado aos cânticos espirituais na ótica da Igreja institucionalizada, as possíveis origens deste gênero, os principais movimentos que determinaram as metas musicais e globais do sistema religioso e a presença dos cânticos espirituais no Brasil. Os resultados apontam para a uma divergência entre as representações feitas acerca da música após o Concílio Vaticano II ou durante o século XX enquanto período do desenvolvimento da música religiosa em língua vernácula e as práticas musicais desde pelo menos a segunda metade do século XIX.

Palavras-chave


Música litúrgica – Igreja Católica. Canto religioso popular. Canto e liturgia em vernáculo. Cantos pastorais. Congregação da Missão Brasileira.

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DOI: http://dx.doi.org/10.20504/opus2016b2205

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