Editorial

Este é o segundo número da OPUS-Eletrônic@. De um modo geral uma revista on-line praticamente em nada difere de uma revista impressa caso ela não se valha dos recursos do dispositivo tecnológico que envolve. E sem tais recursos a grande diferença é a falta que faz o cheiro de papel, a falta do gosto de folear, a falta que faz aquele pequeno volume na estante entre os outros números da revista, etc. Este número ainda não vem suplantar tais diferenças, mas a grande diferença talvez não esteja nesses dois pontos mas sim no número de pessoas que podem, a partir do número anterior da OPUS, acessar a revista para sua leitura, mesmo que ainda com pequenas  limitações como a falta de hábito de se navegar na internet, não conhecer ainda o endereço eletrônico da revista. Entretanto, mesmo assim, ainda devemos distinguir uma grande diferença: não precisamos mais fazer fotocópias dos número que não encontramos para comprar com a facilidade que seria necessária, basta acessá-lo a qualquer hora e lê-lo On-Line.

Neste novo número da OPUS o leitor já pode notar o uso de imagens com cores, e um modo mais simples de navegação, como por exemplo a barra lateral com as notas de rodapé, que evitam o zig-zag do clicar "go-to-note", ler a nota e clicar "go-to-page" — basta clicar na primeira chamada de nota de rodapé que as notas aparecem completamente num quadro lateral à esquerda, bastando, para lê-las, correr com o cursor da barra lateral desta janela. A próxima etapa da OPUS será a de implementar a sua versão para "download" em formato PDF — ainda para este número da revista — o que permitirá que se tenha novamente uma revista para a boa leitura recostado numa poltrona, bastando para isso imprimi-la. Mas aqui pedimos um compasso de espera, reformatar a revista de acordo com os padrões visuais da WWW, editorar um novo número em PDF, tudo isto toma um grande tempo. E, como uma revista eletrônica permite uma grande maleabilidade na formatação e editoração, tal dispositivo poderá ser implementado após o lançamento deste número corrente. E não é só o número com os artigos que temos editado. O leitor de OPUS poderá agora encontrar na página da revista os sumários dos números anteriores, com informações bibliográficas necessárias.

Quanto aos assuntos tratados, este sétimo número da OPUS traz não uma novidade, mas mais uma forte presença de áreas que despontam lentamente no cenário musical brasileiro. A Anppom vem há muito tempo trabalhando com quatro sub-áreas, cada uma com seus vicios e virtudes. Assim, todos os trabalhos na área de música no Brasil tem se inscrito no ambito da Musicologia — vista geralmente como musicologia histórica, ou ainda como etnomusicologia —, da Educação Musical, das Práticas Interpretativas e da Composição. O problema encontrado ao editar este número de OPUS veio principalmente das diversas áreas que emergem permeando as quatro sub-áreas. A análise musical, por exemplo, já vinha navegando entre as sub-áreas definidas pela Anppom, embora sempre amparada pela composição, a ela vem agora se somar a semiótica da música, os estudos sobre paisagem sonora, idéias como a de rádio paisagem, ou ainda as proposições em arte acústica, tudo de modo a pôr em relevo uma outra dimensão do fazer musical: a Escuta musical.

Introduzida na forma que a conhecemos hoje com grande força e criteriosamente definida pelo compositor francês Pierre Schaeffer, seguindo estudos que o antecederam como o livro La Perception Musical de R. Francés, a Escuta passa com mesma intensidade pelo quadro da performance, da musicologia, da educação e da composição. Os leitores do Traité des Objets Musicaux devem se lembrar fortemente aqui da parábola do "menino e a grama" (l’enfant a l’herbe): um menino que tomando de um folículo de grama o transforma em um instrumento, tecendo um embate em que ele tanto aprende o modo de fazer seu instrumento, acoplando seus lábios à folha, quanto o modo de fazer seu som, ouvindo e moldando as sonoridades do instrumento, para por fim inventar aquelas músicas que o instrumento e ele com sua história fazem possíveis. Um jogo simples de escuta em que a escuta musicista de trabalhar seu timbre, a escuta musical de notar as possibilidades gesto-musicais, e a escuta do objeto sonoro, refletem claramente aquelas que adotamos como nossas quatro sub-áreas.

A idéia de escuta atravessa assim os diversos artigos publicados neste número de OPUS. Visando a importância que tal idéia ganhou em práticas musicais como na música eletroacustica e mais recentemente entre aqueles compositores e artístas que se voltaram a compor paisagens sonoras; é da Escuta que falamos quando colocamos em foco a produção radiofônica recente — das peças radiofônicas à simples programação de rádio. E é ainda de Escuta que se fala ao buscar caminhos para a construção de uma análise musical, ou mesmo ao se constituir um léxico que norteie modos de se pensar a prática composicional e interpretativa atual.

A OPUS, deste modo traz à baila idéias cuja força merece espaço por renovar e colocar em compasso a pesquisa brasileira em música com aquelas que vem traçando os rumos de uma música atual. Trazendo para um mesmo ou demais temas mais de uma abordagem, mais de um ponto de vista, muitas vezes antagônicos, desenhando um quadro de pesquisa que não se limita a uma ou outra visão privilegiada e hegemônica.

Para salientar este quadro rico, os artigos que agora publicamos vieram não só daqueles pesquisadores que responderam ao chamado feito pela revista, mas também de artigos escolhidos pelos organizadores de dois encontros na área de música no ano de 2000, o "Encontro Nacional de Performance Musical" e o "IV Forum do CLM", ao que agradecemos aqui aos organizadores destes eventos bem como à Revue do CDMC de Campinas, editada pelo professor e compositor José Augusto Mannis, que, contando atualmente com a mais completa lista de endereços de compositores, pesquisadores e escolas de música do Brasil, foi responsável pelas várias chamadas por artigos que viemos reiterando. Por fim lembramos que, seguindo as normas que estipulamos para este número, cada um dos artigos — insclusive aqueles recomendados — passsaram por dois pareceristas ad-hoc, aos quais reiteramos nossos agradecemos já manifestado em outros momentos.

Boa leitura!
 
 

Silvio Ferraz