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A Música vocal francesa no contexto da Primeira Guerra Mundial

Danieli Verônica Longo Benedetti (USP)

 

Resumo: O presente artigo trata do significativo repertório vocal francês escrito durante os anos da Primeira Guerra Mundial e a influência do contexto histórico na composição musical e textual das obras em questão. Para isso uma reflexão sobre o momento vivido por estes artistas e sobre os procedimentos adotados na criação das obras mencionadas faz-se importante a fim de apontar as características de tais obras dentro da problemática européia do início do século XX.
Palavras-chave: Lili Boulanger; Claude Debussy; Maurice Ravel; Primeira Guerra Mundial; Nacionalismo.

Abstract: This article deals with the repertory of French vocal music composed during the First World War and the influence of the historical context on both textual and musical levels. In order to determine characteristics that will enable us to analyze these works in the European musical context of the early twentieth century, it is important to examine how these artists experienced this period and which procedures they employed in the composition of such works.
Keywords: Lili Boulanger; Claude Debussy; Maurice Ravel; First World War; Nationalism.

 

Com a declaração da Primeira Guerra Mundial, em 3 de agosto de 1914, o envolvimento da nação francesa com o conflito será massivo. A maioria dos compositores irá ao fronte e as preocupações ligadas à defesa da pátria e da própria vida dominariam o espírito dos artistas.

Com essas prioridades, a composição de novas obras é cada vez mais rara e as atividades musicais de Paris que no início do século havia se tornado a grande capital cultural da Europa, diminuiriam consideravelmente.

No jornal La Musique pendant la guerre, é possível confirmar essa realidade nos depoimentos dos vários compositores que se encontravam lutando no fronte ou que aguardavam por essa oportunidade. Segue depoimento de André Gedalge [1], compositor e importante professor de contraponto e orquestração no Conservatório Nacional de Paris (HAYET, 1915, p. 11):

Eu não faço nenhum projeto.
Eu não penso nenhuma música. Noite e dia, há um ano, eu espero o horizonte estrondar a batalha. Se tivesse condições de pensar em outra coisa do que aos que, mais afortunados do que eu, estão na fornalha, eu escreveria a "Marseillaise" [2] .
Infelizmente para mim, ela já foi escrita: em todo caso, como música, eu escuto, escrevo e entendo somente ela.
Eu admiro os que têm o poder de abstrair-se deste pensamento; para mim, isto é impossível.

A música vocal ocupou um lugar de destaque dentre a produção dos compositores franceses durante os anos da primeira guerra. O texto, geralmente escrito pelos próprios compositores, refletia a necessidade destes de exprimir verbalmente o sentimento de nacionalismo, de impotência e de revolta contra os horrores da guerra. Nesse sentido três obras devem ser mencionadas: Pour les Funerailles d´un soldat, escrita por Lili Boulanger  em 1912, Noel des enfants que n´ont plus de maisons, composta por Claude Debussy em 1915 e as Trois Chansons pour Choeur mixte sans accompagnement compostas entre 1914 e 1915 por Maurice Ravel.

1. Pour les Funerailles d´un soldat

Mesmo tendo sido composta dois anos antes do início do conflito, em 1912, Pour les Funerailles d´un soldat foi lembrada por François Porcille, em seu livro La belle époque de la musique française, como estranhamente premonitória, uma visão antecipada de um cataclismo do qual a jovem compositora não conhecerá o final (PORCILLE, 1999, p. 327) [3].

Lili Boulanger escreveu duas versões da obra: uma para barítono solo, coro e orquestra e a outra para barítono solo, coro e acompanhamento de piano, sendo esta a versão adotada para este estudo. A compositora que, ao compor Pour les Funerailles d´un soldat, contava com apenas dezenove anos, já era autora de uma produção significativa, e chama atenção pela maturidade tanto do ponto de vista técnico - domínio composicional - quanto pela sensibilidade ao escolher um texto que parecia prever o futuro próximo, e também confirma a espiritualidade da autora, detalhe observado em suas outras composições corais. O texto é do poeta francês Alfred Musset (1810-1857):

Qu'on voile les tambours que le prêtre s'avance,
A genoux, compagnons, tête nue, et silence! 
Qu'on dise devant nous la prière des morts.
Nous voulons au tombeau porter le capitaine.
Il est mort en soldat sur la terre chrétienne.
L'âme appartient à Dieu, 
L'armée aura le corps.

Si en rideaux de pourpre, et en couvres nuages 
Que chasse dans l'éther le souffle des orages,
Sont des guerriers couchés dans leurs armures d'or,
Penche-toi, noble coeur, sur ces vertes collines,
Et vois tes compagnons briser leurs javelines
Sur cette froide terre où ton corps est resté! 

Ocultemos os tambores pois o padre se aproxima,
De joelhos, companheiros, cabeça baixa, e silêncio!
Que digam diante de nós a oração dos mortos.
Queremos levar o capitão ao túmulo.
Ele morreu como soldado sobre a terra cristã
A alma pertence a Deus,
O exército terá o corpo.

Se em cortina de púrpura, e em cobertas de nuvens
Que caça no etéreo o sopro das tempestades,
São os guerreiros deitados em suas armaduras de ouro,
Incline-se, nobre coração, sobre estas verdes colinas
E vê teus companheiros quebrarem suas lanças
Sobre esta terra fria onde o teu corpo ficou!

 

A obra é uma marcha fúnebre na qual a tonalidade de Si bemol menor está claramente afirmada. Nos quarenta primeiros compassos um pedal de si bemol grave estará presente. A compositora faz uso de duas células rítmicas para este procedimento: uma do compasso 1 ao 15, e a outra do compasso 16 até ao 23. Do compasso 24 ao 40 este pedal perde o seu caráter de ostinato e passa a ter valores mais longos. Segue trecho das passagens iniciais com os pedais rítmicos mencionados.



Ex 1: L. Boulanger, Pour les funérailles d´um soldat, compassos 1-3 (Ed. Schirmer, 1981).



Ex. 2: L. Boulanger, Pour les funérailles d´um soldat, compassos 16-17 (Ed. Schirmer, 1981).

 

De modo geral as sessões caminharão para pontos culminantes onde a presença da dominante (Fá) será seguida pela confirmação da tonalidade principal de si bemol menor. Segue uma destas passagens.



Ex 3: L. Boulanger, Pour les funérailles d´um soldat, compassos 63-65 (Ed. Schirmer, 1981).

 

Para a conclusão da obra a compositora vai usar do mesmo procedimento inicial. Uma longa passagem na qual um ostinato rítmico, inicialmente com pedal de dominante (do compasso 117 ao 124), tendo a indicação para as vozes sans timbre (sem timbre) e para o piano sans expression (sem expressão) em pianíssimo (pp), será seguido por um pedal de Tônica (do compasso 125 ao 140), tendo com este a indicação en s´éloignant (distanciando-se), seguido de au loin, plaintif (ao longe, lamentoso, compasso 133) e a nuance pianíssimo (ppp).



Ex. 4:
L. Boulanger, Pour les funérailles d´um soldat, compassos 117-120. Pedal de Dominante que segue até o compasso 124 (Ed. Schirmer, 1981).

 


Ex. 5: L. Boulanger, Pour les funérailles d´um soldat, compassos 129-132. Pedal de Tônica que segue até o final da obra no compasso 140 (Ed. Schirmer, 1981).

 

Tanto na parte vocal quanto na parte para piano, a partitura é rica em sugestivas indicações da autora no que se refere ao andamento e à busca de timbres e sonoridades. À parte as quatro indicações em língua italiana para o andamento, Allegro (compassos 41, 57, 77 e 114) e a expressão a tempo (compassos 8, 16, 98 e 125) todas as indicações de Boulanger foram especificadas no idioma francês.

A estréia da obra aconteceu em 7 de novembro de 1915, sob a direção de Gabriel Pierné, no momento em que as Orquestras Lamoureux e Colonne, devido à mobilização geral, decidem fundir as duas instituições até o final do conflito, em 1918.

2. Noel des enfants que n´ont plus de maisons

No início de dezembro de 1915, o jornal Le Petit Parisien, publicou uma página dedicada às crianças. Nesta página especial intitulada Aux enfants de France, em anexo no final deste artigo, o jornal ensina às crianças francesas atitudes cívicas -- como se comportar diante de um soldado ferido de guerra, diante de um soldado mobilizado, diante das vítimas, a cultuar os seus mortos e a agradecer aos soldados que lutaram pela proteção dos pequenos e desprotegidos. Encontramos ainda um conto de Natal, que chama a atenção pela forma lúdica em que identifica o inimigo alemão, mostrando o heroísmo do soldado francês. Fica evidente a mensagem de propaganda e o objetivo de educar os futuros cidadãos no sentido de aderirem à ideologia nacionalista.

Possivelmente Debussy teria lido este número especial do Le Petit Parisien, pois neste mesmo mês escreve letra e música de uma peça vocal dedicada às crianças que recebe o título de Noel des enfants que n´ont plus de maisons [4]; duas versões foram feitas, uma para voz e outra para coral de crianças.

A letra reflete claramente o sentimento obsessivo de nacionalismo e de revolta contra a Guerra que tomou conta do compositor neste período. Debussy pensa nas crianças refugiadas e sem abrigo do norte da França e de Flandres no período do Natal [5]:

 

Nous n´avons plus de maisons  
Les ennemis ont tout pris, tous pris, 
Jusqu´à notre petit lit!  

Ils ont brûlé l´école et notre maître aussi. 
Ils ont brûle l´église et monsieur Jésus Christ. 
Et le vieux pauvre qui n´a pas pu s´en aller! 

Nous n´avons plus de maisons. 
Les ennemis ont tout pris, tous pris,
Jusqu´à notre petit lit! 

Bien sûr! Papa est à la Guerre, pauvre maman est morte!
Avant d´avoir vu tout ça. 
Qu´est-ce que l´on va faire?  

Noël! Petit Noël! 
N´allez pas chez eux, n´allez plus jamais chez eux.
Punissez-les! 

Venger les enfants de France!  
Les petits Belges,
Les petits Serbes, et les petits Polonais aussi!  

Si nous en oublions,
Pardonnez nous. 
Noël!

Noël! 
Sourtout, pas de joujoux,
Tachez de nous redoner lê pain quotidien.

Nous n´avons plus de maisons 
Les ennemis ont tout pris, tous pris,  
Jusqu´à notre petit lit!  

Ils ont brûlé l´école et notre maître aussi. 
Ils ont brûle l´église et monsieur Jésus Christ. 
Et le vieux pauvre qui n´a pas pu s´en aller! 

Noël!Écoutez-nous,
nous n´avons plus de petits sabots:
Mais donnez la victoire aux enfants de France! 

Nós não temos mais um lar
Os inimigos tudo levaram, tudo levaram,
Até mesmo nossa caminha!

Eles queimaram a escola e nosso mestre também.
Eles queimaram a igreja e o senhor Jesus Cristo.
E o pobre velho que não pode fugir!

Nós não temos mais um lar.
Os inimigos tudo levaram, tudo levaram,
Até mesmo nossa caminha!

É claro! Papai está na guerra, pobre mamãe morreu!
Antes de assistir a tudo isso.
O que vamos fazer?

Natal!  Natal!
Não vá até eles, nunca mais vá até eles,
Puna-os!

Vingar as crianças da França!
Os pequenos belgas,
Os pequenos sérvios, e também os pequenos poloneses!

Se nos esquecemos,
Perdoem-nos
Natal!

Natal!
Sobretudo, nada de doces,
Trate de nos devolver, o pão de cada dia.

Nós não temos mais um lar
Os inimigos tudo levaram, tudo levaram,
Até mesmo nossa caminha!

Eles queimaram a escola e nosso mestre também.
Eles queimaram a igreja e o senhor Jesus Cristo.
E o pobre velho que não pode fugir!

Natal! Escutem-nos,
nós não temos mais nossos sapatinhos:
Mas dê  a vitória às crianças da França!

                   

Doce e triste. Estas são as indicações iniciais da última melodia composta por Debussy. O compositor parece renunciar aqui às suas pesquisas sonoras, e uma busca pela simplicidade fica aparente.

O conjunto, com sua clássica forma ternária é caracterizado nas partes A, no modo de la menor natural, por um refrão construído sobre três notas descendentes, nous n´avons plus de maisons, e seu acompanhamento, em colcheias rápidas e regulares [6] . Nota-se que a parte para canto está escrita em 4/4 e a parte para piano em 12/8.



Ex. 6: C. Debussy, Noel des enfants qui n´ont plus de Maisons, compassos 1-3 (Ed. Durand, 1916).


Na parte central (B) Debussy modifica a escrita do acompanhamento, que se caracteriza pelas notas e acordes repetidos, aumentando assim a tensão procurada na passagem, que irá culminar no compasso 51, com Noel, Noel, em um ff de grande virtuosismo pianístico e vocal.

A última frase do poema, Mais donnez la victoire aux enfants de France, será acompanhada por acordes repetidos num crescendo molto onde escutaremos nos dois últimos compassos a afirmação do modo maior de La e um acorde de Lá maior em ff séc. conclui a melodia.



Ex. 7: C. Debussy, Noel des enfants qui n´ont plus de Maisons, compassos 81-84 (Ed. Durand, 1916).

 

3. Trois Chansons pour Choeur mixte sans accompagnement

Assim como Claude Debussy, Maurice Ravel também escreveria letra e música para uma importante obra vocal, as Trois Chansons pour Choeur mixte sans accompagnement. A iniciativa de escrever os textos para suas chansons, assim como o fez Debussy na canção Noel des enfants qui n´ont plus de maisons, tratada anteriormente, transmite a necessidade que esses compositores tinham de se expressar, não só com a sua música mas também fazendo o uso da palavra, descrevendo de forma subjetiva seus sentimentos em relação aos horrores da guerra e confirmarem assim o envolvimento com os ideais de nacionalismo e o sentimento de patriotismo. As Trois Chansons pour Choeur mixte sans accompagnement, foram compostas entre dezembro de 1914 e fevereiro de 1915, durante as várias tentativas do compositor para ser aceito às armas francesas e constituem suas únicas composições para o gênero musical de coro a cappela. Ravel dedica cada uma delas a um possível intercessor de seu projeto patriótico de participar como soldado de guerra: a primeira a Tristan Klingsor, que através de sua amizade com militares importantes consegue interceder pela incorporação de Ravel às armas; a segunda a Paul Painlevé e a terceira a Sophie Clémenceau [7].

De acordo com o Dictionnaire Encyclopedique de la Musique, apresentado por Denis Arnold (1988, p.360), o termo chanson é geralmente designado aos cantos polifônicos baseados em versos franceses escritos entre o século XIV e XVI.

As chansons que compõem esta importante obra são: Nicollette (lá menor, finalizando maior), Trois beaux oiseaux du Paradis (fá menor)e Ronde (lá maior). Os textos parodiam com extremo requinte as chansons francesas da Renascença e do folclore basco (o compositor nasceu na região basca da França, e conseqüentemente a influência da cultura de sua terra natal estaria presente em sua obra) e infantil (primeira e terceira), nos quais esboça em um período de dificuldades uma volta ao passado que a Terceira República francesa idealizava.

Certamente a notícia da morte de seus primeiros amigos e de numerosos artistas inspiraria o texto da segunda canção, Trois beaux oiseaux du Paradis [8], uma das páginas mais comoventes do compositor. O poema nos fala do horror da guerra e ao mesmo tempo se apresenta como uma obra patriótica ao evocar as cores da bandeira francesa para cada um dos Três belos pássaros do Paraíso: "o primeiro era mais azul que o céu", "o segundo era cor de neve" e "o terceiro vermelho vivo".

Não poderíamos deixar de mencionar a influencia do Simbolismo nos textos destas chansons. Certamente o convívio com esta corrente literária, na qual encontramos poetas como Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Stephane Malarmé e Maurice Maeterlinck, e, da qual vários compositores do início do século XX servir-se-iam dos textos para a realização de suas obras vocais, influenciaria na criação desta importante obra da literatura coral.

Pela importância do texto no sentido do comprometimento de Ravel com a causa da guerra, transcrevo e traduzo o poema da segunda canção, Trois beaux oiseaux du Paradis:

Trois beaux oiseaux du Paradis,
(Mon ami z-il est à la guerre) 
Trois beaux oiseaux du Paradis, 
Ont passé par ici.

Le premier était plus beau que le ciel,
(Mon ami z-il est à la guerre) 
Le second était couleur de neige 
Le troisième rouge vermeil. 

Beaux oiselets du Paradis, 
(Mon ami z-il est à la guerre) 
Beaux oiselets du Paradis,
Qu´apportez par ici? 

J´apporte un regard couleur d´azur, 
(Ton ami z-il est à la guerre) 
Et sur beau front couleur de neige,
Un baiser dois mettre, encor plus pur.

Oiseau vermeil du Paradis,
(Mon ami z-il est à la guerre)  
Oiseau vermeil du Paradis, 
Que portez-vous ici?

Un joli coeur tout cramoisi 
(Ton ami z-il est à la guerre)...
Ah! Je sens mon coeur qui froidit... 
Emportez-le aussi.

Três belos pássaros do Paraíso,
(Meu amigo z está na guerra)
Três belos pássaros do Paraíso,
Passaram por aqui.

O primeiro era mais azul que o céu,
(Meu amigo z está na guerra)
O segundo era cor de neve
O terceiro vermelho vivo.

Belos passarinhos do Paraíso,
(Meu amigo z está na guerra)
Belos pássaros do Paraíso
O que trazem por aqui?

Eu trago um olhar na cor azul,
(Teu amigo z está na guerra)
E sobre belo fronte cor de neve,
Um beijo, ainda mais puro.

Pássaro vermelho do paraíso,
(Meu amigo z está na guerra)
Pássaro vermelho do paraíso,
O que você traz aqui?

Um belo coração carmesim [9]
(Teu amigo z está na guerra)...
Ah! Eu sinto meu coração esfriar...
Leve-o também.

                                     
                                             

Ravel parece ter adotado, como ponto de partida para esta canção, o procedimento característico do início do século XII francês, o organum melismático. De acordo com esse procedimento a melodia -- cantus firmus -- contendo o texto, seria formada por notas longas, enquanto que a voz ou vozes adicionadas com valores mais curtos desempenhariam a função de uma melodia secundária realizada por notas vocalizadas. As partes vocalizadas deveriam evoluir por intervalos de quartas, quintas ou oitavas (ou de uma combinação apropriada a esses intervalos) com a melodia. Ravel portanto inverte o procedimento, realizando a melodia, que contém o texto poético apresentado sucessivamente por três solistas - soprano, contralto e tenor - com notas curtas e as partes vocalizadas com valores longos. Segue os primeiros compassos da canção em questão, nos qual nos parece claro o procedimento em questão.



Ex. 8: M. Ravel, Trois beaux oiseaux du Paradis, compassos 1-7 (Ed. Durand, 1915).

 

A estréia da obra aconteceu em 11 de outubro de 1917 no Théatre du Vieux-Colombier aos cuidados de um coro reunido pela cantora Jane Bathori [10], sob a direção de Louis Aubert, na presença do compositor.

Conclusão

O presente artigo teve como objetivo fazer uma reflexão sobre o repertório vocal francês escrito durante os anos da Primeira Guerra Mundial. As obras tratadas, aqui representadas pelos compositores Lili Boulanger, Claude Debussy e Maurice Ravel, chamam a atenção pela clareza e simplicidade, nota-se uma busca consciente à sintaxe harmônica clássica, enquanto esses mesmos compositores em fases anteriores inovaram em uma busca por novas sonoridades, novas cores e timbres, se afastando do tonalismo. Nota-se igualmente a importância dada à escolha dos textos destinados a estas obras, muitas vezes escritos pelos próprios compositores, na qual notamos a importância e a necessidade destes de se expressarem sobre o sentimento de impotência e de revolta contra os horrores da guerra. Nesse sentido o conflito diminuiria consideravelmente toda produção musical do período em questão, e o sentimento de defesa da pátria e da própria vida dominariam o espírito dos artistas.

Ex. 9: Petit Parisien, 5/12/1915. Paris: Bibliothèque Nationale de France. [Imagem em JPG 2415x3453 pixels]


Notas:

[1] A respeito de Andre Gédalge, Ravel afirmaria em sua Esquisse Autobiographique: "[...] devo os mais preciosos elementos de meu métier a André Gédalge" (ORENSTEIN, 1989, p. 44).

[2] Hino Nacional francês.

[3] Lili Boulanger morre em 15 de março de 1918, aos 24 anos, meses antes do final da Guerra.

[4] Natal das crianças que perderam o lar.

[5] Durante todo o ano de 1915, o norte da França e o Flandres seriam várias vezes atacados pelas tropas alemãs, deixando muitos mortos e desabrigados. No Natal de 1915 muitas seriam as famílias destruídas pela Guerra.

[6] A (compassos 1-41) B (compassos 42-59) A (compassos 60-84)

[7] Paul Painlevé: matemático, ligado à aeronáutica, e deputado republicano socialista. Ravel entra em contato com Painlevé através de Sophie Clemenceau, com o objetivo de ser incorporado na aviação, tendo como argumento sua baixa estatura e peso.

[8] Os irmãos Pierre e Pascal Gaudin, dedicatários da quarta peça, "Rigaudon", do Tombeau de Couperin, morrem no fronte em 12 de novembro de 1914.

[9] Vermelho vivo.

[10] A soprano Jane Bathori (1877-1970), era amiga íntima de Ravel e Debussy do qual participa da estréia de várias de suas canções.


Referências

BENEDETTI, Danieli. A produção pianística de Claude Debussy durante a Primeira Guerra Mundial. São Paulo, 2002. Dissertação (Mestrado) -- Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo.

HAYET, Charles et. al. La Musique Pendant la Guerre. Revue Musicale Mensuelle. Directeur: Charles Hayet. Paris: Comptoir Géneral de Musique, n. 1, 10 de outubro de 1915.

----------. Le Petit Parisien. 5 de dezembro de
1915.

ORENSTEIN, Arbie. Lettres et entretiens - Maurice Ravel. Paris: Flammarion, 1989.

PORCILE, François. La belle époque de la musique française 1871-1940. Paris: Fayard, 1999.

Partituras

BOULANGER, Lili. Pour les funerailles d’un soldat. Coro misto, barítono e piano. Nova York: Schirmer, 1981. [Informações sobre a disponibilidade da obra: Schirmer, Music Dispatch]

DEBUSSY, Claude. Noël des enfants qui n’ont plus des maisons. Paris: Durand, 1916. [Informações sobre a disponibilidade da obra: Hal Leonard, Durand-Salabert-Eschig]

RAVEL, Maurice. Trois chansons. Choeur mixte sans accompagnement. Paris: Durand, 1916. [Informações sobre a disponibilidade da obra: Hal Leonard, Durand-Salabert-Eschig]


Danieli Verônica Longo Benedetti é bacharel em música, habilitação em instrumento, piano, pela UNESP. Mestre em Musicologia pela ECA/USP/FAPESP, onde atualmente desenvolve sua pesquisa de Doutorado com o apoio da FAPESP, sob a orientação de Amílcar Zani Netto. Estudiosa da música francesa do início do século XX, suas pesquisas tratam da influência do contexto histórico nas obras dos compositores Claude Debussy e Maurice Ravel.
danieli-longo@uol.com.br